Explorar mais o universo de formulação de vidrados autorais tem sido uma prioridade desde o ano passado quando decidi fazer um curso online com a Karina do Ateliê do Quintal para aprender os básicos.

Os vidrados comerciais são bonitos, sim, mas há cores que não atingimos mesmo com grandes misturas. Posso dizer que me sinto 90% satisfeita com os vidrados cerâmicos que utilizo hoje para as minhas peças utilitárias, mas para as peças mais decorativas, precisava de algo com mais personalidade. Talvez o que falte para as minhas peças utilitárias seja um verde realmente bonito que já tentei formular e sempre sai ligeiramente ao lado daquilo que imagino. Me falta tempo para testar mais, mas é algo que certamente vou explorar muito em breve.

 

Considerações sobre decoração de interiores e a potência dos objetos 

Já há muito tempo tenho mergulhado no universo wabi sabi, numa estética japandi (com um toque de arquitetura contemporânea brasileira porque não posso negar minhas raízes).

O wabi-sabi nasce da filosofia japonesa e carrega em si três pilares muito fortes: a impermanência, a imperfeição e a incompletude. Existe uma beleza muito sútil nas coisas que não são polidas até à exaustão, em superfícies que contam histórias, assimetrias que nos lembram que tudo está em constante transformação, texturas que revelam o tempo e o processo. É uma estética, sim, mas também uma forma de estar.

E talvez seja aqui que me vem muito à cabeça aquela ideia do Walter Benjamin sobre a “aura” dos objetos: essa qualidade única que nasce da sua existência no tempo e no espaço. Objetos que carregam marcas, uso, presença, deixam de ser apenas coisas e passam a ser testemunhos. No contexto do wabi-sabi, isso ganha ainda mais força: uma peça não é interessante apesar das suas imperfeições, mas por causa delas. É nelas que a história se revela. É nelas que existe verdade, autoria, magnetismo. 

 

Vejo atualmente opiniões muito dicotômicas sobre decoração de interiores e como decorar os seus espaços / colorir as suas peças. Muitas pessoas seguem a onda atual black and white, minimal, bem impessoal. E outro polo de pessoas que consideram os neutros ultra boring e que bonito mesmo é o excesso de coisas, texturas, objetos super coloridos e divertidos.

Porque não um caminho do meio? Confesso que acho agradável casas muito coloridas e extremamente trabalhadas (só consigo me lembrar do fenómeno atual que é a Madalena Abecassis nesse sentido), mas a minha cabeça já é caótica demais para viver num excesso visual. Aquilo que me traz paz é onde eu quero estar. Mas será que a paz estará numa casa sem personalidade?

O japandi surge exatamente como uma ponte entre dois mundos: a funcionalidade e leveza escandinava com a profundidade e contemplação japonesa. Não chega a ser apenas um minimalismo. Mas uma paz visual que foi selecionada com intenção, onde cada objeto tem presença, peso e significado. Já o contemporâneo brasileiro adiciona calor a essa equação: materiais naturais, madeira, imperfeições, uma certa sensualidade nas formas e uma relação mais emocional com o espaço. Talvez seja essa mistura que me interessa: paz e afeto coexistindo.

Por isso tenho me dedicado a estudar sobre o wabi sabi, não apenas como estética, mas como filosofia aplicada ao espaço e ao objeto. Porque acredito vivamente que conseguimos ter paz visual e personalidade ao mesmo tempo. E aí, para não perder o fio... surgiu o interesse em explorar mais o universo dos lava glazes. Já sigo a Maria Loram e outros nas redes sociais há imenso tempo. Quando vi que ela tinha vontade de dar um workshop de cerâmica presencial em Portugal antes do nascimento do seu primeiro filho conspirei para que os astros se alinhassem (as vezes só rezar não funciona) e quando recebi a mensagem a dizer que as inscrições estavam abertas, não hesitei.

 

 

 

Sobre o curso

A Maria Loram é fabulosa e toda a estética que comentei acima que me agrada, ela explora no seu apogeu. As texturas comunicam tanto, a estética das fotos e apresentação do seu trabalho é realmente algo muito bem construído.

O curso foi dividido em 3 dias, no qual quinta-feira tivemos parte teórica sobre o que consiste um vidrado cerâmico. Essa parte foi menos nova para mim, mas importante porque penso que cada profissional consegue explicar a química da coisa de uma perspectiva diferente e para cabeças menos lógicas como a minha ajuda demais (para mim 1 + 1 não necessariamente significa 2 e posso te explicar como filosoficamente isso faz sentido).

Resumidamente (e alguns já me ouviram falar isso uma panóplia de vezes), um vidrado consiste em vidro + fundente + estabilizante.

Por quê? Vidrado (ou como chamam no Brasil... esmalte) é a combinação entre esses três fatores. Mas quando temos um vidro que funde / derrete a temperaturas muito superiores (acima dos 1.700 graus) que a temperatura de cozedura da cerâmica, precisamos descer essa temperatura de fusão. E para isso usamos fundentes cerâmicos.

Só que imaginem... temos um vidro que foi aplicado de maneira a envolver a sua peça. Ligamos o forno... esse vidro vai derretendo conforme a temperatura sobe e precisa estar numa consistência de mel para que, ao chegarmos no auge da temperatura decidida para aquele ciclo, ele possa solidificar dando um abracinho na sua peça. E para isso, para esse vidrado não escorrer ad eternum por aí, acrescentamos estabilizantes na formulação química desse vidrado.

As cores resultam a partir de acrescentar pigmentos artificiais (stains) ou óxidos + controle de atmosfera do forno e isso já é outra química mais avançada ainda. Mas acho que em resumo é isto.

 

A questão é que toda a química que estudamos para fazer os vidrados perfeitinhos, temos de rever para fazer vidrados com efeitos, como os de lava glazes. E essa foi a parte nova, que inclusive adiciona outros elementos químicos que nunca tinha experimentado, como o silicon carbide.

A quinta-feira a tarde foi de experimentação. E tive o prazer de ter a querida Jane como minha dupla. Testamos receitas que mudavam o racio entre silica e alumina para uma base de estroncio. Foram 9 testes. É a parte mais divertida, principalmente quando se tem ao lado uma mulher que é uma verdadeira potência e lição no sentido de aproveite o momento de forma criativa (porém organizada) e não se pressione tanto. Um presente da vida.

 

O segundo dia mergulhamos na química das cores, testamos muitas mais coisas e fizemos triangulações, e ainda tivemos tempo para tanto testar receitas nossas e cobrir a parte teórica de aggregates (agregados).

 

 

A parte dos aggregates é algo extremamente interessante, uma vez que podemos criar textura com coisas que encontramos por aí na natureza ou na nossa despensa. Diz muito sobre sustentabilidade, experimentação, sobre testes infinitos e pode ser completamente divertido (desde que feito de formas seguras para nós e para os nossos dignissimos fornos). Não sei se tenho coragem de experimentar coisas muito wild no meu Balerion, tenho um amor muito grande por ele. Mas quem sabe... As vezes um dragão precisa de emoção para atingir o auge da sua plenitude!

Para casa trouxe uma placa de barro com pedaços de quartzo, limalha que foi trazida por um colega da Madeira, uma outra pedrinha que foi trazida pela própria Maria... e vamos ver no que resulta.

 

 

 

Tudo enfornado, cerca de 200 testes (yay!), o domingo foi dia de analisar resultados. E parecíamos crianças felizes. Sério. Como é bom voltar a ser criança por uns minutos. Foram três dias incríveis, cercada de pessoas criativas e de uma artista profundamente disponível em partilhar conhecimento de forma generosa e organizada de forma esteticamente agradável/ sistemática (vocês sabem o quanto eu admiro e valorizo isso. O ateliê é a maior prova viva).

Voltei para casa inspirada. A maresia de Oeiras e de Estoril resgataram algo em mim que estava meio adormecido. A parceria com a Jane perdoou muitas exigências que eu tenho feito a mim mesma nos últimos tempos. Os últimos dois anos foram incríveis porque sai do contexto produção em casa para abrir uma escola de cerâmica. Diariamente, com muito suor, tenho semeado e colhido frutos. E sei, algumas vezes aceito de forma mais fácil, outras não, que a minha produção seja sacrificada em prol de algo maior. A verdade é que já fazem 2 anos e meio que sou mais empresária e professora de cerâmica do que ceramista em si. E silenciar a nossa criatividade, canalizando-a apenas para o lado visível e concreto, as vezes acaba por ser um silenciamento de nós mesmas.

Voltei inspirada. Voltei compreendendo que se eu não gosto de pintar, eu não preciso pintar (obrigada Jane) e que eu posso ser boa naquilo que eu sou boa de forma prazerosa e fácil. Não preciso seguir o caminho difícil porque dizem que é o certo. Posso seguir o caminho daquilo que está e sempre esteve no meu coração. Posso explorar o meu amor por vidrados, pela profundidade, pela textura, pela forma como a superfície se transforma. Posso continuar a trabalhar dentro de uma estética mais minimalista, mas com personalidade. Uma personalidade que não vem do excesso, mas da matéria, da química, do tempo e do (meu) processo.

 

 

* O curso aconteceu presencialmente no mês de março de 2026 na Ceramista Shop de Oeiras. No entanto se você tiver curiosidade e quiser aprender com a Maria Loram, ela tem opções de cursos online. Basta aceder o seu perfil do Instagram e procurar por mais informações.